A Inteligência Artificial e o futuro da educação: uma reflexão necessária

Por Zevaldo Sousa
Licenciado em História, Mestre em Ciências da Educação, Especialista em Mídias na Educação

Vivemos em um momento singular da história humana. A Inteligência Artificial deixou de ser tema exclusivo de ficção científica ou laboratórios acadêmicos para se tornar uma força transformadora que remodela o tecido social. Para educadores, essa realidade não é meramente uma observação intelectual, é um chamado à ação. A pergunta que nos fazemos não é mais "A IA chegará à educação?", mas "Como queremos que ela chegue?".

Este texto propõe uma reflexão sobre a importância de compreender a história, a natureza e as implicações da Inteligência Artificial para o trabalho educacional contemporâneo.

Confesso que, quando conheci o ChatGPT, logo que ele foi disponibilizado ao público, fiquei profundamente impressionado e cheguei a acreditar que as redes neurais seguiam padrões verdadeiramente inteligentes. Essa impressão foi tão marcante que, para compreender melhor o que estava sendo proposto à sociedade naquele momento, senti a necessidade de estudar e ler extensivamente sobre o tema. Não me tornei um especialista no assunto, mas, como educador e entusiasta das tecnologias, considero ter adquirido os conhecimentos essenciais para dialogar criticamente e compartilhar reflexões fundamentadas com outros colegas.

Neste sentido, já adentrando no assunto proposto, quando falamos em "Inteligência Artificial", frequentemente aceitamos o termo sem maiores questionamentos. Porém, existe um paradoxo fundamental que merece nossa atenção. As máquinas que criamos não são inteligentes como somos inteligentes. Carecem de consciência genuína, de intencionalidade (aquela capacidade humana de apontar para algo e atribuir significado). Um sistema de IA pode reconhecer um rosto em uma fotografia com acurácia superior à dos humanos, mas não "compreende" o que significa estar triste ou alegre. Pode até escrever um texto coerente, mas não reflete sobre suas próprias limitações como um escritor humano faria, ou seja, ela não tem consciência do que está escrevendo, apenas segue os padrões determinados no seu treinamento.

Esta distinção não é meramente semântica. É educacionalmente crucial. Se acreditássemos que máquinas são verdadeiramente inteligentes no sentido humano, seríamos tentados a delegar integralmente a educação a sistemas automatizados. Compreender que a IA apenas simula aspectos da inteligência humana e pode, inclusive, passar no Teste de Turing, não significa atribuir-lhe inteligência no sentido humano. A Inteligência Artificial é e continuará sendo fundamentalmente distinta da inteligência humana, justamente por não possuir consciência, intencionalidade ou experiência subjetiva. Essa distinção é essencial, pois preserva o espaço inegociável da educação humanista: aquele em que se desenvolvem consciência, intencionalidade, significado e valores.
A história da Inteligência Artificial oferece lições valiosas sobre inovação, humildade e adaptação. O campo nasceu oficialmente em 1956, marcado por um otimismo exuberante. Pesquisadores acreditavam estar próximos de criar máquinas tão versáteis quanto os seres humanos. Essa confiança, contudo, encontrou limites práticos e conceituais significativos, resultando em um período prolongado de avanços mais lentos, ainda que graduais.
Ao longo das descobertas científicas no campo da Inteligência Artificial, os pesquisadores aprenderam uma lição fundamental de humildade ao reconhecerem que a inteligência é muito mais complexa do que inicialmente supunham. Ao perceberem que a chamada inteligência geral não seria, naquele momento, um caminho viável, passaram a investir no desenvolvimento de sistemas especialistas, capazes de agregar valor em domínios específicos. A popularização da internet ocorrida no século XXI e o aumento do poder computacional combinado com grandes volumes de dados dos usuários, possibilitou o avanço das redes neurais profundas, que passaram a alcançar capacidades surpreendentes em áreas como reconhecimento de imagens, processamento de linguagem natural e tomada de decisão.
Hoje, a IA oferece promessas interessantes para a educação. Sistemas tutores inteligentes podem personalizar a aprendizagem ao ritmo de cada aluno. Análise automatizada de avaliações pode fornecer feedback instantâneo e detalhado. Conteúdo que pode ser gerado sob demanda e adaptado a diferentes níveis de compreensão. A IA pode ajudar e muito toda a comunidade educativa, mas promessas sem vigilância ética transformam-se em perigos. 
Quando sistemas de IA são treinados com dados que refletem vieses históricos, amplificam discriminação e vale destacar que os gestores dessas ferramentas inteligentes são, em sua grande maioria, homens brancos do Norte Global que representam as BigTechs e os interesses de seus países. Para entender o que estou falando, basta você acessar esses sistemas de IA e solicitar que escrevam um texto. Se for uma IA de empresa estadunidense ela retornará com referenciais estadunidenses e só alterará seus vieses, se você for bem específico. Se for uma IA chinesa, ela defenderá o regime chinês e não aceitará questionamentos.
Por este motivo, afirmo: Quando educadores abdicam completamente da autoridade pedagógica em favor de recomendações algorítmicas opacas e enviesadas, cedem poder sobre decisões que afetam vidas. Quando sistemas educacionais informatizados priorizam métricas quantificáveis (pontuações, tempo de tela) em detrimento de competências menos mensuráveis alinhadas à BNCC como: criatividade, empatia, pensamento crítico, reduzem a educação a uma mecanicidade empobrecida e enquanto educadores não aprenderem a usar (criar prompts pedagógicos e intencionais) a forma mais elementar de IA disponível para o grande público (as LLM's e seus chatbots inteligentes), maior é o risco que corremos ao deixar nossos alunos aprenderem sozinhos com essas ferramentas.
Portanto, o risco maior não é a IA em si, mas a passividade educacional diante dela. A tecnologia não é determinista. Não há futuro inevitável. Há apenas futuros possíveis: alguns desejáveis, outros menos.
Diante dessa realidade complexa, qual é o papel do educador? 
  • Primeiro, precisamos APRENDER. Precisamos compreender suficientemente IA para ensinar sobre ela criticamente. Isso não exige ser especialista em redes neurais, mas exige literacia básica sobre conceitos, capacidades e limitações.
  • Segundo, precisamos QUESTIONAR e não aceitar narrativas de inevitabilidade tecnológica. Interrogar promessas com ceticismo sadio. Perguntar-se frequentemente: "Essa ferramenta serve ao que realmente importa em educação?"
  • Terceiro, precisamos nos EMPODERAR e dar aos alunos as ferramentas conceituais para entender, criticar e potencialmente moldar como IA é desenvolvida e implementada. Educação é preparação para agência futura.
  • Quarto, precisamos PROTEGER e estarmos conscientes dos riscos à privacidade, da discriminação algorítmica e da degradação de habilidades humanas e, com isso, trabalhar ativamente para minimizá-los em nossas instituições.
  • Por fim, precisamos IMAGINAR possibilidades de uso e ajudar nossas alunos a vislumbrar futuros alternativos. Nem utópicos (onde IA resolve todos os problemas), nem distópicos (onde nos domina), mas possíveis. Mundos onde a tecnologia serve ao bem comum e amplifica capacidades humanas sem substituir o que torna a vida significativa.
A história da Inteligência Artificial nos ensina algo importante: nenhuma tecnologia é moralmente neutra, mas nenhuma é também determinista. Sempre há espaço para escolha, para direcionamento ético, para insistir que algumas coisas, como a formação integral de seres humanos, não podem ser integralmente automatizadas ou mercantilizadas.
Compreender a IA não é luxo para educadores. É responsabilidade. A geração que educamos herdará um mundo permeado por sistemas inteligentes. Prepará-la não é equipá-la com as respostas corretas, mas municiá-la com as questões corretas: aquelas que nos permitem, coletivamente, construir um futuro onde tecnologia serve à humanidade, e não o oposto.
A inteligência artificial está aqui. A questão agora é: qual tipo de educação queremos para um mundo assim?

Obs.: Utilizei a IA do ChatGPT para corrigir eventuais erros de ortografia e gramática.

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