As 5 dimensões da excelência científica: Um olhar filosófico sobre o fazer do pesquisador

Por Zevaldo Sousa

Nos últimos dias venho estudando e escrevendo sobre a Inteligência Artificial e neste momento, ao começar a escrever sobre a "pedagogia e a engenharia na escrita de um prompt para uma IA generativa com finalidade acadêmica" me fiz a seguinte pergunta: "O que um cientista, um acadêmico, um pesquisador precisa conhecer para ser um excelente profissional?" Para responder a essa questão, tomei como base o resultado final dos trabalhos destes profissionais e busquei responder sobre o ponto de vista da filosofia da ciência, pois entendo que a excelência de um cientista, acadêmico ou pesquisador não se mede pelo acúmulo de títulos, técnicas ou publicações isoladas, mas pela qualidade epistemológica, ética e social do resultado final de seus trabalhos. , ou seja, o que estamos avaliando é a obra produzida e seus efeitos, pois ela é quem revela o profissional que a concebeu.

A partir desse critério, compreendemos que um excelente profissional da ciência precisa dominar cinco dimensões fundamentais, todas observáveis no produto final de sua pesquisa. Vamos conhecê-las?


1. Fundamentos epistemológicos do conhecimento científico

O primeiro requisito é compreender o que significa conhecer cientificamente. O resultado final de um bom trabalho revela se o pesquisador distingue opinião, senso comum, crença e conhecimento validado e isso implica conhecer:

  • A natureza provisória do conhecimento científico;
  • Os critérios de validade, falseabilidade, coerência interna e consistência lógica;
  • Os limites do método científico e das generalizações.

De forma resumida, é entender que um trabalho científico excelente não promete verdades absolutas, mas apresenta conclusões sustentadas por argumentos, dados e reconhecimento explícito de suas limitações como defendido por Karl Popper (2013) ao tratar da ciência como um sistema de conjecturas e refutações.

O resultado visível do conhecimento científico está presente nas conclusões prudentes, bem delimitadas e epistemologicamente honestas.


2. Método científico como racionalidade, não como receita

Um pesquisador excelente compreende que método não é um roteiro mecânico, mas uma forma racional de interrogar a realidade. O resultado final de seu trabalho demonstra coerência entre problema, objetivos, método, análise e conclusão e isso exige:

  • A capacidade de escolher métodos adequados ao objeto (quantitativos, qualitativos, mistos);
  • A consciência de que todo método carrega pressupostos teóricos; e,
  • A capacidade de justificar escolhas metodológicas.

Como argumenta Thomas Kuhn (2013), a ciência opera dentro de paradigmas. Um bom trabalho revela se o pesquisador sabe em qual paradigma está operando e quais são seus limitesAo compreender as fronteiras do seu campo, o pesquisador evita conclusões infundadas e identifica os pontos onde a teoria atual falha e esse seria o primeiro passo para uma descoberta científica ou até para as crises que levam às grandes revoluções científicas.

De forma prática, ao olhar para o trabalho do pesquisador conseguimos encontrar uma metodologia consistente, explicitada, criticamente justificada e que reconhece suas limitações.


3. Rigor conceitual e domínio teórico

Um excelente cientista demonstra, no resultado final de seu trabalho, domínio real dos conceitos que utiliza, ou seja, ele não escreveu por escrever, existe intencionalidade em cada linha de seu trabalho. Os conceitos escolhidos não são ornamentos textuais; são instrumentos analíticos e isso envolve:

  • Definir claramente categorias teóricas;
  • Dialogar criticamente com autores clássicos e contemporâneos;
  • Evitar uso superficial ou modista de teorias.

Pierre Bourdieu (2003) alerta que a ausência de rigor conceitual transforma a ciência em retórica vazia. Neste sentido, um pesquisador precisa demonstrar em seu trabalho a sua capacidade de pensar com os autores escolhidos, em vez de apenas citá-los.

No entanto, há uma exigência fundamental: não se deve selecionar apenas autores que dialoguem positivamente ou que validem as hipóteses do trabalho. É preciso validar o conhecimento também referenciando trabalhos de autores que são contrários às suas ideias, refutando-os por meio de uma argumentação sólida baseada em dados e fatos. 

Esse trabalho árduo e inspirador, requer leitura e uma mente aberta ao diálogo científico e é percebido no trabalho científico que possui uma argumentação sólida, com conceitos bem operados e diálogo crítico tanto com a literatura convergente quanto com a divergente.


4. Ética científica e responsabilidade social

Imaginemos um cientista que omite no seu produto final que recebeu financiamento de uma empresa que seria beneficiada com o resultado do seu trabalho. O fato é: esse cientista manipulou dados e foi antiético e quando a fraude for descoberta, ele não estará prejudicando apenas o seu trabalho, mas comprometendo a credibilidade de toda comunidade científica. Neste sentido, podemos afirmar que a excelência científica também se revela pela postura ética inscrita no produto final visto que o pesquisador precisa compreender que ciência é uma prática social com impactos reais e que o conhecimento científico não é neutro nem isolado. Ele depende da confiança pública e da integridade do pesquisador para ter valor e isso inclui:

  • Respeito à integridade dos dados e dos atores envolvidos;
  • Reconhecimento de autoria e combate ao plágio;
  • Clareza quanto aos limites e possíveis usos indevidos dos resultados.

Robert K. Merton (2013) aponta que o éthos da ciência se sustenta em normas como universalismo, desinteresse, "comunismo" e ceticismo organizado. Um trabalho excelente respeita essas normas mesmo sob pressão por produtividade (o famoso publica ou morra muito comum hoje na comunidade científica). Muitas vezes, para conseguir verbas ou promoções, pesquisadores são tentados a cortar caminhos éticos. Um "trabalho excelente" é aquele que resiste a essa pressão, priorizando a qualidade e a verdade sobre a quantidade de publicações.

O resultado visível dessa postura é a autoridade moral. Um trabalho ético torna-se uma base sólida sobre a qual outros pesquisadores podem construir, garantindo que a ciência cumpra seu papel de promover o bem público.


5. Capacidade de produzir sentido e transformação

Por fim, o critério decisivo: o que o trabalho acrescenta ao campo científico e à sociedade? Um excelente pesquisador compreende que conhecimento relevante é aquele que explica melhor, problematiza ou transforma práticas e compreensões existentesIsso não significa que toda pesquisa deva ser aplicada, mas toda pesquisa deve:

  • Contribuir para o avanço do debate científico;
  • Produzir inteligibilidade sobre a realidade;
  • Possibilitar novos questionamentos.

Como defende Gaston Bachelard (1996), a ciência avança quando rompe com obstáculos epistemológicos e inaugura novas formas de pensar. Na prática, o trabalho científico deve gerar impacto intelectual, educacional, social ou científico duradouro.

Pergunta-se, neste caso: Qual é a relevância deste trabalho para a comunidade científica ou para a sociedade? A resposta precisa estar evidenciada no trabalho, ou seja, esse trabalho precisa propor avanços, necessita acrescentar sentido ou apenas "iluminar" o fenômeno estudado.

Um erro comum é achar que a ciência serve para "encerrar" assuntos. Pelo contrário: um excelente trabalho científico abre mais portas do que fecha. Ao resolver um problema, o pesquisador deve ser capaz de apontar novos horizontes e perguntas que ninguém havia pensado antes. É isso que garante que a ciência continue evoluindo.


Síntese filosófica

Em última análise, ser um excelente cientista, acadêmico ou pesquisador é um exercício de vigilância e entrega. Sob a ótica da filosofia da ciência, a excelência não é um atributo nato ou um título acumulado, mas uma qualidade objetiva inscrita na obra produzida com rigor, ética e sentido. O trabalho de excelência é aquele que sobrevive ao crivo do tempo e dos pares porque não é apenas tecnicamente correto, mas filosoficamente fundado. 

Ao analisar o produto final de uma pesquisa, reconhecemos o mestre por trás da obra através de cinco pilares:

  • Consciência epistemológica;
  • Racionalidade metodológica;
  • Profundidade teórica;
  • Ética científica;
  • Responsabilidade social.

Conclui-se, portanto, que a excelência científica reside na capacidade de transformar o ato de pesquisar em um compromisso ético e transformador. O excelente profissional é aquele que, ao responder a uma pergunta, não apenas oferece uma conclusão, mas eleva o nível do debate e abre novos horizontes para todos que virão depois dele. A ciência, assim, deixa de ser um "fazer" burocrático para tornar-se um "ser" socialmente relevante.

Diante da onipresença da Inteligência Artificial, o desafio do pesquisador contemporâneo não é evitá-la, mas submetê-la aos mesmos critérios de excelência que regem a ciência há séculos. Se o valor de um acadêmico revela-se na qualidade de sua obra, a IA deve ser encarada não como um atalho para o resultado, mas como um acelerador da capacidade analítica que exige vigilância epistemológica redobrada. Escrever um prompt com finalidade acadêmica torna-se, portanto, um ato de engenharia acadêmica e pedagógica: é preciso saber interrogar a máquina com o rigor de Bourdieu e a prudência de Popper, garantindo que a inteligência artificial sirva para expandir a inteligibilidade e não para camuflar a ausência de pensamento próprio. No fim, a tecnologia pode processar dados, mas a produção de sentido e o compromisso ético permanecem como prerrogativas humanas inalienáveis.

Nesse cenário de simbiose entre humano e algoritmo, impõe-se a dúvida fundamental: como assegurar que o uso da IA qualifique a investigação científica sem diluir a responsabilidade ética do pesquisador sobre o dado e a evidência?


Declaração de Uso de IA

Nota de Transparência: Este texto foi construído por meio de um processo de escrita colaborativa entre o autor e a Inteligência Artificial (modelo Gemini e ChatGPT). A estrutura lógica, a seleção dos marcos teóricos (Popper, Kuhn, Bourdieu, Merton e Bachelard) e as reflexões éticas foram definidas e conduzidas pelo autor humano, enquanto a IA atuou como assistente de redação para síntese, refinamento gramatical e organização textual, respeitando a integridade das ideias propostas.


Referências

  • BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. Disponível em <https://astro.if.ufrgs.br/fis2008/Bachelard1996.pdf>. Acesso em 12 jan. 2026.
  • BOURDIEU, Pierre. El ofício del cientifico: Ciencia de la ciencia y reflexividad. Barcelona: Editorial Anagrama, 2003. Disponível em <https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/98967>. Acesso em 12 jan. 2026.
  • KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas / Thomas S. Kuhn; tradução Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. — 12. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013. Disponível em <https://ppec.ufms.br/files/2020/10/A-estrutura-das-revolu%C3%A7%C3%B5es-cient%C3%ADficas-Kuhn.pdf>. Acesso em 12 jan. 2026. 
  • MERTON, Robert K. Ensaios de sociologia da ciência. São Paulo: Editora 34, 2013. [livro físico]
  • POPPER, Karl R. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 2013. [livro físico]

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