Quando a razão iluminou a história
Imaginem vocês vivendo em um mundo onde quase tudo era decidido pela tradição, pela religião e pelos reis. Um mundo onde questionar as autoridades era perigoso, onde a maioria das pessoas não tinha acesso à educação e onde os privilégios de nascimento determinavam todo o seu futuro. Esse era o mundo do Antigo Regime, que dominou a Europa por séculos. Mas, no século XVIII, algo extraordinário começou a acontecer: pensadores corajosos começaram a usar a razão para questionar tudo isso. Essa revolução das ideias ficou conhecida como Iluminismo.
O Antigo Regime: O mundo antes das luzes
Para entendermos a importância do Iluminismo, precisamos primeiro conhecer o que ele combatia: o Antigo Regime. Esse sistema, que predominou na Europa entre os séculos XVI e XVIII, organizava a sociedade de forma muito rígida e desigual. A estrutura social era dividida em três estados ou ordens: o clero (primeira ordem), a nobreza (segunda ordem) e o povo comum, chamado de Terceiro Estado (FALCON, 1986).
O poder político estava concentrado nas mãos dos reis absolutistas, que acreditavam governar por direito divino, ou seja, que Deus os havia escolhido para serem reis. A Igreja Católica exercia enorme influência sobre a vida das pessoas, controlando não apenas as questões religiosas, mas também o conhecimento e a educação. A economia era mercantilista, com o Estado controlando fortemente o comércio. A maioria da população vivia no campo, trabalhando nas terras dos nobres em condições muito difíceis (BURNS; LERNER; MEACHAM, 2005).
Nesse contexto, questionar a ordem estabelecida era considerado perigoso e herético. A liberdade de expressão praticamente não existia, e a censura era rigorosa. Mas as mudanças econômicas e sociais que ocorriam na Europa começaram a criar tensões nesse sistema. O comércio crescia, cidades se desenvolviam e uma nova classe social emergia: a burguesia, formada por comerciantes e profissionais urbanos que, apesar de terem dinheiro, não tinham privilégios políticos.
O Iluminismo: a luz da razão
O Iluminismo, também chamado de Século das Luzes, foi um movimento intelectual que surgiu na Europa, especialmente na França, durante o século XVIII. Seu nome vem da ideia de que a razão humana era como uma luz capaz de dissipar as trevas da ignorância, da superstição e do autoritarismo.
Os iluministas acreditavam profundamente no poder da razão humana para compreender o mundo e resolver os problemas da sociedade. Eles defendiam que todas as pessoas nascem com direitos naturais, como a vida, a liberdade e a propriedade. Para os iluministas, esses direitos não vinham de reis ou de Deus, mas eram inerentes à condição humana. Questionavam o absolutismo monárquico e defendiam que o poder político deveria ser limitado por leis e pela vontade do povo.
A tolerância religiosa era outro valor fundamental para esses pensadores. Eles criticavam o fanatismo religioso e defendiam que cada pessoa deveria ter liberdade para escolher suas crenças. A educação era vista como essencial para o progresso da humanidade, pois somente através do conhecimento as pessoas poderiam exercer sua cidadania e melhorar suas vidas. Os iluministas também tinham uma visão otimista sobre o progresso: acreditavam que a humanidade poderia avançar continuamente através da aplicação da razão e do método científico (CHÂTELET; DUHAMEL; PISIER, 2009).
Os grandes pensadores iluministas
Vários filósofos brilhantes contribuíram para o desenvolvimento do pensamento iluminista, cada um com suas ideias particulares, mas todos unidos pela valorização da razão e pela crítica ao Antigo Regime.
John Locke (1632-1704), filósofo inglês, é considerado por muitos o pai do liberalismo político. Locke defendia que todos os seres humanos nascem com direitos naturais à vida, à liberdade e à propriedade. Para ele, o governo existe através de um contrato social: as pessoas cedem parte de sua liberdade ao Estado em troca de proteção de seus direitos. Se o governo não cumprir seu papel, o povo tem o direito de resistir e até mesmo de mudar o governo. Essas ideias foram revolucionárias porque questionavam o direito divino dos reis (LOCKE, 1998).
Montesquieu (1689-1755), barão francês, escreveu "O Espírito das Leis", onde desenvolveu a teoria da separação dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Montesquieu argumentava que concentrar todos os poderes em uma única pessoa ou instituição levava inevitavelmente ao despotismo. A separação de poderes, com cada um fiscalizando o outro, seria a garantia da liberdade dos cidadãos. Esse princípio influenciou profundamente a organização política das democracias modernas (MONTESQUIEU, 1996).
Voltaire (1694-1778), cujo nome verdadeiro era François-Marie Arouet, foi um dos mais famosos escritores e filósofos iluministas. Conhecido por sua língua afiada e seu humor mordaz, Voltaire criticava ferozmente a Igreja Católica, a intolerância religiosa e os abusos do poder absolutista. Defendia a liberdade de expressão com paixão. Uma frase atribuída a ele resume seu pensamento: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las" (VOLTAIRE, 2000).
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) trouxe uma perspectiva diferente ao Iluminismo. Em sua obra "O Contrato Social", Rousseau defendia que a soberania pertence ao povo e que a vontade geral deve prevalecer. Ele acreditava que os seres humanos nascem bons, mas são corrompidos pela sociedade. Rousseau também valorizava a igualdade e influenciou muito os movimentos democráticos e revolucionários posteriores (ROUSSEAU, 2006).
Denis Diderot (1713-1784) e Jean le Rond d'Alembert (1717-1783) coordenaram um projeto monumental: a Enciclopédia. Esta obra de 28 volumes reuniu todo o conhecimento da época e tinha o objetivo de difundir as ideias iluministas. A Enciclopédia representava a crença iluminista de que o conhecimento deveria ser organizado, acessível e compartilhado com todos (DARNTON, 1996).
O Liberalismo Econômico e Adam Smith
Enquanto os filósofos iluministas revolucionavam o pensamento político, o Iluminismo também transformou a forma de pensar a economia. O liberalismo econômico surgiu como uma crítica ao mercantilismo do Antigo Regime, onde o Estado controlava rigidamente o comércio.
Adam Smith (1723-1790), economista e filósofo escocês, é considerado o pai da economia moderna. Em 1776, ele publicou "A Riqueza das Nações", obra que estabeleceu os fundamentos do liberalismo econômico. Smith defendia o livre mercado, argumentando que quando cada pessoa busca seu próprio interesse econômico, acaba beneficiando toda a sociedade, como se houvesse uma "mão invisível" organizando a economia (SMITH, 1996).
Para Smith, a interferência excessiva do governo na economia era prejudicial. Ele acreditava na livre concorrência, na divisão do trabalho como forma de aumentar a produtividade e no comércio internacional sem restrições. Essas ideias contestavam diretamente o mercantilismo, que priorizava o acúmulo de metais preciosos e a proteção da economia nacional através de tarifas e monopólios estatais.
O liberalismo econômico de Smith estava profundamente conectado aos valores iluministas: a liberdade individual, a confiança na capacidade das pessoas de tomar decisões racionais e a crença no progresso através da liberdade. Suas ideias influenciaram decisivamente a Revolução Industrial e o desenvolvimento do capitalismo (HUNT; SHERMAN, 2013).
A divulgação das novas ideias
As ideias iluministas não ficaram restritas aos gabinetes dos filósofos. Elas se espalharam pela Europa através de diversos meios. Os livros e panfletos circulavam, apesar da censura. A Enciclopédia foi fundamental nesse processo de difusão do conhecimento. Jornais e revistas começaram a publicar textos sobre ciência, filosofia e política, alcançando um público cada vez maior (DARNTON, 1996).
Os salões literários, reuniões organizadas geralmente por mulheres da aristocracia e da burguesia, eram espaços importantes onde intelectuais, artistas e políticos se encontravam para discutir as novas ideias. Os cafés das grandes cidades europeias também se tornaram centros de debate intelectual. As academias científicas e as sociedades literárias promoviam o intercâmbio de conhecimento.
A maçonaria também teve papel importante na divulgação dos ideais iluministas, criando redes de contato entre intelectuais de diferentes países. Através de todos esses canais, as ideias de liberdade, igualdade, razão e progresso se espalharam, criando um clima cultural favorável às grandes transformações que viriam (VENTURI, 2003).
Os déspotas esclarecidos: Iluminismo nos tronos
Um fenômeno interessante do século XVIII foi o surgimento dos chamados déspotas esclarecidos. Eram monarcas que, influenciados pelas ideias iluministas, tentaram modernizar seus países através de reformas, mas mantendo o poder absoluto. Eles queriam um governo eficiente e esclarecido, porém sem abrir mão de sua autoridade.
Frederico II da Prússia (1712-1786) é um exemplo clássico. Ele se correspondia com Voltaire, promoveu a tolerância religiosa, reformou o sistema judicial e incentivou a educação. No entanto, manteve o regime absolutista e a sociedade rigidamente hierarquizada. Catarina II da Rússia (1729-1796) também se apresentava como uma governante ilustrada, correspondia-se com Diderot e D'Alembert, e tentou modernizar a Rússia. Mas, na prática, fortaleceu a servidão e concentrou ainda mais poder em suas mãos (FALCON, 1986).
O marquês de Pombal (1699-1782) em Portugal implementou reformas iluministas, expulsou os jesuítas do Brasil, reorganizou o ensino e reconstruiu Lisboa após o terremoto de 1755 com planejamento racional. Contudo, governava de forma autoritária. Esses governantes demonstram uma contradição: queriam modernizar seus Estados usando a razão, mas temiam as consequências políticas das ideias de liberdade e igualdade defendidas pelos iluministas.
O legado do Iluminismo: A era das revoluções
As ideias iluministas não permaneceram apenas no campo teórico. Elas inspiraram as grandes revoluções do final do século XVIII e início do XIX. A Independência dos Estados Unidos (1776) foi a primeira grande aplicação prática dos princípios iluministas: a Declaração de Independência, escrita por Thomas Jefferson, está repleta de ideias de Locke sobre direitos naturais e contrato social (KARNAL et al., 2007).
A Revolução Francesa (1789) foi ainda mais radical. Os revolucionários franceses basearam-se nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento fundamental da Revolução, proclamava os direitos naturais e a soberania popular, ecoando diretamente as ideias iluministas. Montesquieu inspirou a organização dos poderes, Rousseau influenciou as ideias sobre democracia e soberania popular (HOBSBAWM, 2010).
As independências na América Latina, incluindo a do Brasil, também foram influenciadas pelo Iluminismo. Os líderes desses movimentos, muitos educados na Europa, conheciam bem os filósofos iluministas e suas críticas ao absolutismo e ao colonialismo. O liberalismo econômico de Adam Smith justificou o fim dos monopólios coloniais e a abertura dos portos ao comércio internacional.
O Iluminismo, portanto, não foi apenas um movimento de ideias. Foi uma verdadeira revolução cultural que transformou a forma como pensamos sobre direitos, governo, educação, economia e progresso. Os valores que ele defendeu - razão, liberdade, igualdade perante a lei, tolerância, direitos humanos - continuam sendo fundamentais para as democracias modernas. Quando estudamos nossas instituições políticas atuais, como a separação de poderes, ou quando defendemos direitos fundamentais, estamos, de certa forma, sendo herdeiros daqueles pensadores que, no século XVIII, ousaram usar a razão para questionar o mundo ao seu redor e imaginar uma sociedade melhor.
Como referenciar este texto:
Blog do Lab de Educador. O Iluminismo e o Liberalismo: As ideias que mudaram o mundo. Zevaldo Sousa. Publicado em 27/02/2026. Disponível em <https://blog.labdeeducador.com.br/2026/02/o-iluminismo-e-o-liberalismo-as-ideias.html>. {codeBox}
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Referências
- BURNS, E. M.; LERNER, R. E.; MEACHAM, S. História da civilização ocidental: do homem das cavernas às naves espaciais. São Paulo: Globo, 1982.
- CHÂTELET, F.; DUHAMEL, O.; PISIER, E. História das ideias políticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
- DARNTON, R. O Iluminismo como negócio: história da publicação da Enciclopédia, 1775-1800. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
- FALCON, F. J. C. Iluminismo. São Paulo: Ática, 1994.
- HOBSBAWM, E. J. A era das revoluções: 1789-1848. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2012.
- HUNT, E. K.; LAUTZENHEISER. M.. História do pensamento econômico - Uma Perspectiva Crítica. GEN Atlas, 2012.
- KARNAL, L. et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2007.
- LOCKE, J. Segundo tratado sobre o governo civil: e outros escritos. Petrópolis: Vozes, 2019.
- MONTESQUIEU, C. S. O espírito das leis. Editora Martin Claret, 2009.
- ROUSSEAU, J.-J. O contrato social. 3. ed. Editora Princips, 2021.
- SMITH, A. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. Vide Editorial, 2023
- VENTURI, F. Utopia e reforma no Iluminismo. Bauru: EDUSC, 2003.
- VOLTAIRE. Cartas inglesas; Tratado de metafísica; Dicionário filosófico; O filósofo ignorante. São Paulo: Abril Cultural, 1998.
